
Prioridade do governo Lula, o projeto de transposição do rio São Francisco é ainda motivo de polêmica. Mas, afinal, o que vem a ser essa tal de transposição?
O projeto de transposição já vem desde a época de Dom Pedro II e é visto por muitos como a única solução para a seca na região do semi-árido nordestino. Hoje em dia, é um empreendimento do Governo Federal, orçado em R$ 4,5 bilhões, que prevê a construção de dois canais que totalizam 700 quilômetros de extensão. Tal projeto, teoricamente, irrigará a região nordeste e semi-árida do Brasil.
A polêmica criada por esse projeto tem como base o fato que se a transposição for concretizada afetará intensamente o ecossistema ao redor de todo o rio São Francisco. Há também várias pessoas (eu estou incluída aqui) que acreditam que essa transposição só vai ajudar os grandes latifundiários nordestinos, já que grande parte do projeto passa por grandes fazendas e os problemas nordestinos não serão solucionados.
O projeto prevê a construção de dois canais, sendo que um deles, o leste, terá cerca de 210 km, e trará água ao estado de Pernambuco e levará água também para a Paraíba. O canal norte, por sua vez, terá 402 km, e também beneficiará Pernambuco e Paraíba, além do Ceará e do Rio Grande do Norte.
O EIA-RIMA (estudo de impacto ambiental, disponível em http://www.integracao.gov.br) foi realizado por 3 empresas, que detectaram, entre outros, os seguintes impactos negativos:
1.Perda do emprego da população nas regiões desapropriadas e dos trabalhadores ao término das obras.
2.Modificação nos ecossistemas dos rios da região receptora, alterando a população de plantas e animais aquáticos.
3.Risco de redução da biodiversidade das comunidades biológicas aquáticas nativas nas bacias receptoras.
4.A desapropriação das terras e o êxodo das regiões atingidas, alterando o modo de vida e os laços comunitários de parentesco.
5.Circulação de trabalhadores por terras indígenas das etnias Truká e Pipipã, gerando interferências indesejáveis. 6.Pressão na infra-estrutura urbana nas cidades que irão receber os trabalhadores, aumentando a demanda por moradia e serviços de saúde.
7.Risco de perda de patrimônio pois a região do projeto possui muitos sítios arqueológicos.
8.Desmatamento de 430 hectares de terra com flora nativa e possível desaparecimento do habitat de animais terrestres habitantes destas regiões. Alguns destes animais encontram-se vulneráveis ou ameaçados de extinção regional, como o tatu-bola, a onça-pintada e o macaco-prego,.
9.Introdução de espécies de peixe prejudiciais ao homem na região, como piranhas e pirambebas, que se alimentam de outros peixes e se reproduzem em água parada.
10.A diminuição dos volumes dos açudes provocando a redução biodiversidade de peixes.
11.Alguns rios não têm capacidade para receber o volume de água projetado, inundando os riachos paralelos.
12. Modificação no regime fluvial do Rio São Francisco.
13.Redução da geração de energia elétrica no Rio São Francisco.
14.Perda das receitas municipais que são pagos como compensação aos municípios onde se concentram as usinas hidrelétricas. (é aqui que se concentram as maiores brigas entre os municípios afetados).
15.Risco de eutrofização dos novos reservatórios. (Eutrofização é o excesso de nutrientes em um corpo d’água fechado, o que faz aumentar a população de algas e, conseqüentemente, deterioração da qualidade da água no local)
16.Especulação imobiliária ao longo das várzeas por onde passarão os canais.
Este estudo de impacto ambiental se refere somente aos eixos a serem implementados. Os estudos sobre os impactos na bacia doadora não foram efetuados. A ausência de estudos sobre os impactos na foz também é questionada. Além disso, sempre em empreendimentos de grande porte, há a necessidade de compensações ambientais e medidas mitigadoras, o que não aparece nesse estudo claramente (o que será feito e quem o fará). 
Lendo o EIA/RIMA sobre a transposição do São Francisco, fica claro que o relatório não é neutro como deveria ser e é a favor da transposição. Além disso, afirma que se não houver a transposição, não haverá crescimento econômico (crescimento para quem? e crescimento econômico depende só da água?)
Bem, levando-se em consideração que o ministro da integração nacional, Geddel Quadros Vieira Lima, é baiano do PMDB, pecuarista e produtor de cacau, fico com a pulga atrás da orelha. A meu ver, a transposição é muito mais política do que realmente necessária.
Outras informações: O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e deságua no Oceano Atlântico entre os estados de Alagoas e Sergipe. Possui cerca de 2800 km de extensão, com 75% de sua vazão gerada em Minas Gerais e a área compreendida entre a fronteira de Minas Gerais e Bahia (a cidade de Juazeiro), representando 45% do vale e contribuindo com apenas 20% da vazão anual.
O rio banha cinco estados, recebendo água de 90 afluentes pela margem direita e 78 afluentes pela margem esquerda, sendo 99 deles perenes (que não seca durante o período de seca). É um rio de grande importância econômica, social e cultural para os estados que atravessa.
Foto minha tirada na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas.
Denise



